Wednesday, October 29, 2008

Primeira viagem no CTIG.

À FALTA DE OUTRA, ESTA IMAGEM CORRESPONDE À CHEGADA DO MEU PIRA AO XIME, NO DIA 24-07-1974

Dia 22, 04 da manhã, o Pelotão de Morteiros 4574/72 e o 4575/72 com destino respectivo Nova Lamego e Bambadinca, embarcaram no cais de Bissau na LDG Bombarda, destino Xime, primeira viagem Geba acima para nós Piras, e uma, mais uma, para o navio que hoje sei esteve envolvido na operação Mar Verde, portanto o navio "tinha" muita experiência de navegar por este rio, e não só, o mesmo não se podia dizer de nós que em Bissau ouvimos todas as "bocas" da caserna no que respeitava a esta viagem e região.

A viagem correu bem, vi nascer o dia em pleno rio Geba, (rio que próximo de Bissau parece do tamanho de um mar, fez do Tejo um ribeiro), e produto das "bocas" da caserna passamos por uns locais chamados de ponta varela e do inglês, dos quais diziam ser perigosos porque os turras atacavam sempre as embarcações e sou soube onde ficavam quando dois marinheiros colocaram-se na ponte do navio um de cada lado com morteiros 60 apontados as margens, pensei queres ver que afinal isto é a serio, mas lá passamos sem qualquer problema, o rio ia ficando cada vez mais estreito e entretanto chegamos ao Xime por volta das 9 hora + ou -.

À nossa espera estavam varias viaturas e alguns "velhinhos" que, nos deram a praxe da ordem que devia ser habitual para aquelas ocasiões, como: "meus filhos nunca mais vinham, estamos cheios de reumático, etc.", todo isto a condizer com os trajes, roupa esfarrapada mesmo com muito mau aspecto, maços de algodão no rosto como se fossem na realidade velhos, ordem para subir para as viaturas, eu quando dei por mim estava em cima da ultima berliet da coluna e rodeado de civis homens e mulheres cada um a sua trouxa de haveres, para os quais sorria com um sorriso muito amarelo, pensava entretanto como era possível aquela situação, pois nem sequer sabia que aquilo era normal, naquela época e numa situação idêntica (no meio de pretos), ensinaram-nos a desconfiar até da própria sombra e naquele momento o meu principal problema era que tinha uma G-3 e balas nem uma para amostra.

A coluna seguiu a sua marcha com destino a Nova Lamego, mal sabia que teríamos que fazer duas paragens, para os piras quanto menos soubessem melhor, é assim que penso hoje, percorremos 13 Km, pela pouca informação que vi nalgumas placas à beira da estrada, e paramos, estávamos em Bambadica onde ficou o Pelotão 4575/72, uns abraços a alguns camaradas, entretanto houve um compasso de espera, quando vejo mais uma placa que apontava para uma picada e dizia Xitole, palavrões que em Nova Lamego o deixaram de ser, porque faziam parte do meu serviço e que durante dois anos tive que escrever repetidas vezes quase sempre por maus motivos, mas, o pior foi que junto a esta mesma placa estava uma outra posta lá à pressa talvez por pessoal do Pel. Mort. de Bambadinca, digo eu, apontada ao sentido contrário ao que seguíamos e que tinha escrito, "LISBOA 3.000 KM, acho que estavam mal medidos, mas que deixou o cá o rapaz de rastos deixou. Retomamos de novo o caminho mas ainda paramos num local que vim a saber chamar-se Bafata, que era a 2ª maior cidade da Guiné, passados 11 Km, não sei para fazer o quê? talvez para entrar mais passageiros como os meus vizinhos de viagem, Bafata na época era, manga de cidade bonita comparada com Nova Lamego para a qual arrancamos finalmente 54 Km de estrada alcatroada, alias também o era logo a partir do Xime, e que mesmo assim estava sempre à espera de haver barulho a qualquer momento, felizmente que não aconteceu nada, chegados à porta de armas do quartel que ficava antes de entrar na cidade por volta das 13 horas.


...Continua.




Monday, October 27, 2008

Chegada a Bissau.






Foi no dia 15 de Julho de 1972, chegamos ao Figo Maduro de madrugada, vindos do RI15, Tomar, embarcamos por volta das 10 horas, com destino à Guiné, Leste, Nova Lamego, a viagem decorreu na normalidade para quem fazia o seu baptismo de voo, "quase todos", acho eu, pelas 12,20 o avião dos TAM, (transporte aéreo militar), imobilizou-se na placa, o pessoal prepara-se para sair, um a um lá se vão aproximando da porta, quando foi a minha vez, tive a sensação de que estava à porta de um forno, o ar estava abafado e o céu nublado, de imediato foi um despir blusões, arregaçar mangas de camisa, desapertar gravatas por todos os lados, mais parecia um campeonato qualquer de stiptease sem que ninguém desse o tiro de partida.

Após os procedimentos legais, tais como, dar vacinas a alguns que não sei porquê não as tomaram na Metrópole, contar o pessoal, não tivesse fugido algum pelo caminho, tudo isto feito dentro do barracão em Bissalanca. Após algum tempo e completo o serviço, vai de saltar para umas berliets que esperavam por nós cá fora e nisto começa a chover e a trovejar, parecia inverno na minha Lisboa, mas diferente porque ao mesmo tempo fazia muito calor, o que me fez muita confusão pois não sabia que era assim, nenhum "meteorologista" em 9 meses que já levava de tropa, no meu caso, se tinha dado ao trabalho de explicar minimamente o que iríamos encontrar nas províncias ditas Ultramarinas e em especial na Guiné devido à proximidade do trópico. Também foi chuva de pouca dura como começara acabou, uma novidade a juntar a tantas outras que comecei a coleccionar desde aquele momento.

Pouco depois cheguei a um quartel que vim a saber mais tarde chamar-se Deposito de Adidos localizado em Brá, onde no dia seguinte ao almoço vi um acto que para mim talvez tenha sido o mais chocante até à data da minha vida. Miúdos no refeitório do lado de fora porque nem sequer os deixavam entrar, com recipientes de vários tipos e feitios a mendigarem uns restos de comida, camaradas da "velhice", misturaram tudo, literalmente, como restos de sopa, espinhas, batatas e cascas de fruta tudo o que era lixo para darem as crianças, mais tarde pude verificar que o defeito era dessa unidade que juntava pessoal de todas as zonas do mato, o que em situações como esta. é propício a juntar sempre pouca coisa boa.

Na colecção, felizmente também houve algumas coisas boas que ainda hoje recordo e, uma delas na parte que toca à linguagem começou com: machimbombo, porque era necessário para chegar a Bissau, já dentro deste aprendi a palavra catinga, (manga dela), depois peso para pagar o bilhete, patacão, bazuka, da fresquinha e por aí fora.

Dia 20, como era da praxe, também tivemos a recepção de boas vindas, o cmdt-chefe deu um pulinho até Brá e lá discursou, como todos os que foram à tropa sabem bem como era, desfile do costume e mais uns "prontos a serem despachados até ao destino, Bambadinca e Nova Lamego.
OBS: Olha como eles eram tão verdinhos! ....CONTINUA.

Sunday, October 19, 2008



PORQUÊ NOVA LAMEGO.





Para pessoas da minha geração penso que foi marcante, pelo menos para mim por vários motivos, o serviço militar. Não gostei de ser mobilizado para a Guiné, não gostei de ir para o Leste nem tão pouco para Nova Lamego mas, já que para lá fui, adaptei-me como os Portugueses fazem muito bem.

Após o regresso há muito anos, andei algum tempo sossegado a pensar só na vida, minha e na dos meus, consequência directa da lógica dos tempos, constituir família e tentar recuperar o tempo perdido.

Mas passados cerca de vinte anos, esta terra nunca mais me deixou dormir sossegado, nem com umas receitas que frequentemente levanto na farmácia do bairro.

A vontade de voltar é enorme, quanto mais tempo passa maior ela é. Quando embarquei não me deram explicações sobre tema nenhum, do clima, das condições do terreno, das pessoas que habitavam a zona que a sorte me reservou, só me diziam que ia combater turras.
Pois em Nova Lamego e não só, encontrei gente muito humilde e que queria a guerra tanto como eu, é desse povo que tenho imensas saudades e que quero rever assim que tiver oportunidade.

Por este resumo que agora vos apresento, este Blogue só podia ter um nome.

Sotnaspa