Sunday, March 8, 2009


A PRIMEIRA LAVADEIRA - ROSA





Como está demonstrado na foto anterior, por vezes levava a roupa à Rosa, não era obrigação porque o preço incluia a recolha e a entrega mas, quando ia à Cidade, (quase todos os dias), senão todos e a morança nem era muito desviada da estrada, era só fazer um pequeno desvio e entregava-lhe a trouxa, assim fazia de uma vez duas coisas, entregava a roupa e entretinha-me por lá a matar algum do tempo que tinha de sobra e aprender também mais um pouco sobre a vida daquelas pessoas, mais precisamente dos Fulas, uma vez ou outra tirava-se uma fotos, tanto que gastei em fotos e agora que precisava delas para reforçar este meu recordar e nem rasto. Enfim nunca sabemos o futuro, nunca me imaginei estar a lembrar os anos ìdos de 72/73/74, passados no Gabú e que jurei nunca querer recordar, era para esquecer definitivamente mas, aqui estou eu a tentar lembrar-me dos mais pequenos permenores que nos escapam hoje, mas talvez amanhã me recorde, para assim compor o puzzle da minha passagem por aquelas terras.

COM OS AMIGOS, GRAÇA, VASCO E SANTOS







Depois seguia-se até ao centro para rever as coisas vistas na vespera, embora nem todos os locais fossem de passagem obrigatória, sempre havia alguns que se repetiam todos os dias a ida ao Jacob, com dinheiro ou sem, quando o horario era a condizer uma passagem pela casa da mulher grande também não ficava mal mas, quase e sempre o que não faltava era uma ìda à ponte, à saída de Nova Lamego para Piche, onde passava e passa um rio, que segundo o google earth, ainda lá está, onde faziam pela vida e se entretinham umas mulheres grandes e algumas bajudas a lavar a roupa o corpo, tudo e nós era só olhar e dar umas "bocas", ali chegavamos a estar uma, duas horas, sem exagero a olhar para as bonecas.

TENDO POR FUNDO O RIO

Depois o regresso à caserna, havia serviços por cumprir e assim a história repetiu-se por dois longos anos.






Tuesday, December 30, 2008

Lavadeira

Para não fugir à rotina, penso que, foi igual para todos ou quase, também eu fui confrontado com a necessidade de contratar uma lavadeira, apesar que quando saí de Lisboa pensar que ia passar os 21 meses, que diziam ser o tempo da comissão a tratar da roupa, coisa que nunca tinha feito até à data nem sabia fazer. a falta de informação era gritante quer sobre este assunto, como a meteorologia a população que iríamos encontrar com a diversidade de etnias e religiões tudo diferente do que estávamos habituados, etc. Não me atrapalharia porque não estava habituado a se-lo e além disso a tropa mandava desenrascar, aí o meu velhinho encarregou-se de dar uma mão e encaminhou-me para a Rosa que já era a sua lavadeira, apesar de ter sido assediado por umas quantas, confesso que estava a ficar baralhado com a escolha, a oferta era maior que a procura no intuito de angariar clientela e sempre eram 50 pesos por cada militar manga de patacão, o que ajudava no orçamento da morança, e foram assim os primeiros dias para os novos piras de Nova Lamego.

E foi assim que passei a ter pela primeira vez na minha vida uma lavadeira externa, porque até essa data, incluindo 9 meses de tropa na Metrópole, e desde que nascera tinha sido sempre a minha mãe.

A Rosa, era uma bajuda Fula com 14 anos, pequena como a idade, tímida mas, muito competente com a minha roupa, foi minha lavadeira só uns meses porque entretanto seguiu o destino de qualquer bajuda da sua etnia, foi vendida, a um homem grande de Piche, (ou já estava à muito?), esta palavra é dura mas verdadeira e penso que ainda hoje acontece, tenho esperança que não seja tanto como naquele tempo, o nada, seria óptimo para aquelas meninas. Quando a voltei a ver uns meses, aconteceu só uma vez, parecia uma velha, e não a adolescente jovial e alegre que era... lembro ter ficado bastante chocado.

Portanto como a vida continuava, tratei de assegurar os serviços de outra e depois outra, não sei porquê mas ao todo foram seis, a ultima até arranjou peças de roupa para a troca, como é habito dizer-se, para que nada falta-se no espólio o que de facto aconteceu quando o fiz em Lisboa no RAL 1 na Encarnação no dia 1 de Agosto de 1974, quando pediam determinada peça entregava quase tudo a mais. A Rosa era diferente o pouco tempo de lavadeira da minha roupa nunca faltou nem sobrou peça, foi a minha preferida e eu até fazia visitas à morança a família era numerosa como era normal, com eles aprendi alguns dos seus costumes, tenho algumas fotos com elementos da sua família entre eles algumas crianças de quem gostei e sempre protegi, não me lembro de visitar as outras lavadeiras e nem sequer sabia onde moravam.


Trouxa de roupa para a lavadeira, Rosa.

Continua.....




Sunday, November 30, 2008


Esta é a imagem actual, (Google), do ex/quartel das nossas tropas em Nova Lamego, do quartel existe o quadrado, onde havia minas, hoje há casas, inclusive nas traseiras onde vi incontáveis vezes o por do sol.

...CONTINUANDO.

Reforço foi o único que fiz, quando cheguei a Bissau depois de umas férias merecidas e enquanto aguardava transporte para casa (Nova Lamego). fui brindado com um piquete nos Adidos, emprestaram-me uma FN e lá fui dar uma volta de Unimog 411 junto ao arame farpado que rodeava Bissau.

Depois deste atalho voltamos ao dia a dia.

No dia seguinte fomos apresentados ao Alf. TRMS Pinto Ferreira, homem do Porto, excelente pessoa, nunca chateou ninguém pelo menos durante o tempo que estive a trabalhar com ele, ainda não o disse mas este Bcav. 3854, já estava na Guiné quando da nossa chegada à 12 meses e 5 dias, fomos distribuídos entre o posto radio e o centro de mensagens, na proporção do Pelotão dos velhinhos, inicialmente fui para o rádio, aquilo nada tinha a ver com a especialidade, tirada em Lisboa no BC 5, o que nesta aprendemos foi para esquecer, reaprendemos tudo de novo e para isso nada melhor do que pessoal com prática, muita, ao 3º dia logo pela manhã quando entrava-mos no centro de trms, perguntaram quem se chamava Santos, respondi, e enviaram-me para o centro de msg, ficava na sala ao lado, por troca do camarada Vasco que segundo me foi dito não se tinha adaptado, ainda não estava completamente esquematizado com o posto radio e já me mandavam para outro serviço que nada tinha haver, mas era preciso aprender e depressa, para isso tive os ensinamentos do homem que fui render assim como dos 3 homens do Bat. que compunham a equipa de 4 operadores de mensagens, foi só necessário aprender o método de trabalho, os códigos não era preciso encaixar porque mudavam de 11 em 11 dias enviados para todo o CTIG, metodicamente pela cheret em Bissau.

Após a sobreposição, o Pel. rendido 2267, marchou para Bissau para regressar a casa, e como outras vezes a cena repetia-se, ficávamos com inveja de não sermos nós, mas aos poucos tudo voltou ao que seria a rotina. Para mim no centro de msg, 8 horas de serviço descanso de 24 e assim sucessivamente, uns dias depois estava na caserna com alguns camaradas e de repente um barulho enorme, maior talvez do que a saída de morteiro que essas já eu conhecia do IAO, pegar na arma e saltar para a vala não me lembro como, só sei que já la estava com o coração a querer saltar pela boca quando outro disparo é ouvido e nós a olhar para o mato e nada, até que o telefone do posto do morteiro ali ao lado da caserna toca e anunciam que não era nada tinha sido um teste de canhão sem recuo mandado executar pelo Hitler, para assustar os piras do Pel. Daimler 8670, que tinha chegado nesse dia, para render o 3006, mas, acabou por assustar também os Morteiros, fez, o hoje chamado 2 em 1. Só para completar, o teste foi feito dentro do quartel no espaldão onde estava estacionado o Willes com o canhão montado, resultado além do cagaço, dois bidons cheios de terra amolgados como se estivessem vazios e grande parte dos vidros das janelas da messe de sargentos partidos.

ÁS 00,10 de 07 Setembro ouvi pela 1ª vez as saídas do foguetão terra/terra 122 mm, os impactos, felizmente erraram, mas, estrondo e o clarão foram logo de seguida ouvidos e vistos, a partir daí pensei para os meus botões, "afinal isto è a sério", os foguetões não eram muito certeiros pelo menos para o meu lado, mas, que desmoralizavam disso fiquei sem duvidas.

.continua...


Thursday, November 13, 2008

Primeiro Impacto.




A miniatura do estandarte Pel. Mort. 4574 que chegou aos nossos dias, são os anos!

Já repararam pelo que contei no ultimo poste, que foi o Gregório o meu cicerone e conselheiro "militar", nos primeiros tempos em Nova Lamego, soube à dias que infelizmente já faleceu, como grande amigo que fui, sou e serei, para ele a minha homenagem, porque é nos momentos dificeis que passamos é que nós sabemos quem são os verdadeiros amigos que, quanto a nós pelos tempos passados na nossa adolescência já não havia duvidas. Quando tive o 1º ataque de paludismo, e não sabendo o que aquilo era deixei-me andar; parecia uma gripe, havia de passar pensava, errado, estava de serviço no centro de mensagens do Batalhão e não podendo mais, alguns colegas pegaram em mim ao colo já não tinha força nas canetas e transportaram-me para a enfermaria que na época ainda funcionava no quartel velho no centro de NL, e o Gregório embora tivesse uma intensa actividade operacional não faltou, varias vezes, para inteirar-se do meu estado e saber se era preciso alguma coisa, camaradão! safei-me por pouco, apesar de estar super medicado com tudo o que havia, mesmo assim de madrugada foram levantar o médico à cama porque eu não estava bem, passei nesta enfermaria 4 dias e fui com um camarada africano estrear a nova no quartel novo e ainda lá passei 2 ou 3 dias só depois é que tive alta médica.



O verso do mesmo.



Tive mais cinco vezes o paludismo, de tal maneira era afectado que comecei a ter o meu stock no armário com o quinino necessário e disponível para qualquer eventualidade, lembro-me que no final já depois do 25 de Abril, a escassez de medicamentos era muita, um dos enfermeiros foi ter comigo para fornecer uma dose para outro camarada atrapalhado com o bichinho e não havia em NL com que tratar o homem.

Depois deste preâmbulo, voltemos aos primeiros dias dos muitos passados em NL, no segundo dia depois de dormir no chão, foi assim os primeiros tempos até que recebemos as camas de ferro, e finalmente começamos a ter uma caserna mais composta mais arrumada. Nesse dia os transmissões foram escalados para fazer reforço, segundo as primeiras informações tiradas junto dos nossos velhinhos era coisa que não faziam por lá, só e exclusivamente trabalho no centro de transmissões com as respectivas saídas para a rua quando fosse necessário e por escala. Atribuíram-nos um posto onde ninguém fazia serviço, próximo da estrada alcatroada, principal via de acesso ao centro de NL, e também muito perto de um aglomerado de moranças junto ao arame, soube mais tarde, contarei outra deste militar, que tinha sido uma partida do Hitler, ele gostava de pregar partidas, cagaços, aos piras, podia-lhe ter saído caro pelo menos moralmente, como se verifica mais à frente, mas também é verdade que quem se lixa sempre é o mexilhão, Nunca tínhamos feito qualquer reforço, a experiência era zero, Chegada a hora lá fomos e digo e digo "fomos" porque entretanto convenci o Graça a fazer o turno comigo, porque ele desde que fomos mobilizados não andava bem psicologicamente e em companhia a coisa devia passar melhor, conversamos sobre algo que já não lembro e daí por pouco já eu falava sozinho porque ele entretanto adormeceu, fiquei a olhar para o arame e para as moranças e não fosse sair de lá algum turra, tudo isto iluminado por holofotes alimentados por gerador, junto ao posto estava uma vala com um espaldão com breda, nas paredes da dita estavam embutidos bidões ou parte deles, com cunhetes de munições, granadas ofensivas e defensivas, enfim uma fartura a constratar com a falta de balas de G-3 na viagem de Bissau para NL, no arame aqui e além garrafas de cerveja penduradas aos pares , ainda não tinha percebido bem para quê mas, não demorou muito porque entretanto entrou em cena um pequeno esquilo que aparecendo do nada saltou para o arame fazendo com que o alarme disparasse, isto é, as garrafas tilintaram e eu claro assustei-me saltei para a vala agarrei na breda pois o instinto dizia-me que não era assunto para a minha G-3 agora com munições, no meio disto tudo acabei por ter a calma suficiente para primeiro tentar perceber o que se passava e acabei por entender que era só um esquilo do tamanho de um palmo e assim não carreguei nos botões de "punho" da breda e não limpei as moranças logo ali em frente, mas que esteve quase esteve! entretanto o "sócio" continuava a dormir.
....CONTINUA.

Friday, November 7, 2008

Quartel Novo de Nova Lamego.




Esta imagem é da porta de armas do quartel onde passei 24 meses.






Mal as berliets se imobilizaram, vai de saltar para o chão e descarregar a mobília, estafados e ainda a pensar na mãezinha, eis que deparamos com uma figura que se destacou dos restantes, não só por ser major, mas também pelo seu vozeirão, era 2º cmdt e acumulava com oficial de op. do Bat. Cav. 3854, fez questão de nos receber logo à porta de armas, e de imediato mandou formar, nem nos deixou respirar já de si difícil para um Pira pouco habituado aqueles ares! o seu nome Martins Ferreira, disse-o ele, a alcunha soubemos pela surdina, Hitler, e o cmdt é que tinha nome atirar para o alemão, de seu nome completo, António Malta Leuschner Fernandes, Ten-Cor. de Cavalaria, completamente diferente de feitio, tinha os seus dias mas, na maioria deles era bastante calmo, o Hitler, só não berrou com o Alferes Marcelino da Mata, numa das visitas feitas por este a Nova Lamego, de resto berrava com todos com algumas excepções superiores é claro.


Após a formatura e o blá blá do costume, que era quase sempre igual, lá fomos para um palacete, localizado nas traseiras do quartel com vistas para a mata e campo de minas, de ambos os lados sensivelmante à mesma distancia, poucos metros à esquerda o gerador e a direita o paiol, quase a estrear vazio sem mobiliário todo amplo, situação que se manteve por uns dias, até que finalmente recebemos as camas e o meu "velhinho" ofereceu-me o caixote de tábuas, que fazia as vezes de armário, aí chegados apareceu o bendito do homem do SPM e aquilo é que foi um distribuir de cartas acumuladas desde a nossa chegada que já fazia uma semana, (um século), nunca mais se repetiu tanta fartura de correspondência nos 2 anos seguintes, estava cada um para o seu lado, eu sentado em cima de um dos meus "chouriços", saco com parte da mobília que todos se lembram, de costas para a porta, também para evitar que fosse visto a verter uma ou outra lágrima mais teimosa, a ler com sofreguidão as noticias da família, nem prestava atenção a algumas notas de cem escudos que chegaram misturadas, e eu parvo na resposta escrevia ao pessoal que não era preciso dinheiro que aquilo ali era tudo muito bom, comida era do melhor, grande aldrabão! não é que acreditaram e as notitas começaram a rarear, e que falta faziam! entretanto ouvi uma voz que me pareceu conhecida, esta aqui alguém de Lisboa! olhei para trás, porque de Lisboa naquele pelotão só eu e/ou o Graça, era o Gregório Gil Gaudêncio, um amigo de alguns anos que eu não sabia que estivesse por aqueles lados, pertencia a Ccaç. 3565, companhia de intervenção às ordens do CAOP2, portanto uma comp. de apaga fogos, fogueiras, e até incêndios, e o maior foi em 1973 construir de raiz, do nada um destacamento no Catanhez, e pelo que na altura este amigo me dizia através dos poupa selos, levaram muita porrada.


Acto continuo grande abraço e convite a largar as cartas, pois tinha muito tempo para as ler, experiência de velhinho com cerca de 3 meses daquelas andanças, bem depois de alguma insistência lá fui levado a ver os cantos à cidade, leia-se; cafés e afins, beber umas cervejas, estava no inicio e ainda não era artilheiro com a especialidade de bazukas, mas garanto-vos que ganhei experiência rapidamente, entretanto demos um pulo ao quartel dos paraquedistas onde o Gregório tinha um primo 1º cabo que era o (taberneiro) do bar, a companhia não me recordo a qual ele pertencia.
Nova Lamego, escrevo sempre assim, porque era assim quando lá estive, não tenho nada contra o nome actual Gabu, este nome não é obra do acaso, já na época Gabu Sará era a zona administrativa como se fosse um distrito da qual Nova Lamego era a capital, o administrador era Cabo verdiano de seu nome Salomão, assim para o gordinho a constratar com 99% da população que eram exactamente o contrário, embora a zona Gabu muito mais ampla, inclusive transbordava as fronteiras actuais, já existisse antes dos Portugueses chegarem aquelas paragens, como sabemos Nova Lamego era uma terra pequena embora fosse considerada como a 3ª mais importante da Guiné, depois de Bissau e Bafatá, tinha um Hospital civil pequeno, um cinema de seu nome cine-Gabu, uma cadeia, uma igreja católica uma mesquita que eu conhecia não sei se havia mais e uma central eléctrica com 2 grupos geradores granditos, no entanto em termos militares era o inverso, ao sector L-3 estavam atribuídos na época: CAOP2, Pmc, Bat. Cav. 3854, CCS mais as suas 3 companhias, Ccaç. 3565, uma comp. Paras que se revezavam todos os meses, Ccaç. 5, 1 Pel. Mort., 1 Pel. Art. Obuses, 1 Pel. Rec. Daimel, 1 Pel. AAA, STM, SPM, 8 Pel de Milícias, e a partir de 1973, 3 GE Milícias, estes treinados em NL pelos homens do então Alferes graduado Marcelino da Mata, e mesmo assim os turras escorregavam por entre os dedos do pessoal.


.... CONTINUA.

Wednesday, October 29, 2008

Primeira viagem no CTIG.

À FALTA DE OUTRA, ESTA IMAGEM CORRESPONDE À CHEGADA DO MEU PIRA AO XIME, NO DIA 24-07-1974

Dia 22, 04 da manhã, o Pelotão de Morteiros 4574/72 e o 4575/72 com destino respectivo Nova Lamego e Bambadinca, embarcaram no cais de Bissau na LDG Bombarda, destino Xime, primeira viagem Geba acima para nós Piras, e uma, mais uma, para o navio que hoje sei esteve envolvido na operação Mar Verde, portanto o navio "tinha" muita experiência de navegar por este rio, e não só, o mesmo não se podia dizer de nós que em Bissau ouvimos todas as "bocas" da caserna no que respeitava a esta viagem e região.

A viagem correu bem, vi nascer o dia em pleno rio Geba, (rio que próximo de Bissau parece do tamanho de um mar, fez do Tejo um ribeiro), e produto das "bocas" da caserna passamos por uns locais chamados de ponta varela e do inglês, dos quais diziam ser perigosos porque os turras atacavam sempre as embarcações e sou soube onde ficavam quando dois marinheiros colocaram-se na ponte do navio um de cada lado com morteiros 60 apontados as margens, pensei queres ver que afinal isto é a serio, mas lá passamos sem qualquer problema, o rio ia ficando cada vez mais estreito e entretanto chegamos ao Xime por volta das 9 hora + ou -.

À nossa espera estavam varias viaturas e alguns "velhinhos" que, nos deram a praxe da ordem que devia ser habitual para aquelas ocasiões, como: "meus filhos nunca mais vinham, estamos cheios de reumático, etc.", todo isto a condizer com os trajes, roupa esfarrapada mesmo com muito mau aspecto, maços de algodão no rosto como se fossem na realidade velhos, ordem para subir para as viaturas, eu quando dei por mim estava em cima da ultima berliet da coluna e rodeado de civis homens e mulheres cada um a sua trouxa de haveres, para os quais sorria com um sorriso muito amarelo, pensava entretanto como era possível aquela situação, pois nem sequer sabia que aquilo era normal, naquela época e numa situação idêntica (no meio de pretos), ensinaram-nos a desconfiar até da própria sombra e naquele momento o meu principal problema era que tinha uma G-3 e balas nem uma para amostra.

A coluna seguiu a sua marcha com destino a Nova Lamego, mal sabia que teríamos que fazer duas paragens, para os piras quanto menos soubessem melhor, é assim que penso hoje, percorremos 13 Km, pela pouca informação que vi nalgumas placas à beira da estrada, e paramos, estávamos em Bambadica onde ficou o Pelotão 4575/72, uns abraços a alguns camaradas, entretanto houve um compasso de espera, quando vejo mais uma placa que apontava para uma picada e dizia Xitole, palavrões que em Nova Lamego o deixaram de ser, porque faziam parte do meu serviço e que durante dois anos tive que escrever repetidas vezes quase sempre por maus motivos, mas, o pior foi que junto a esta mesma placa estava uma outra posta lá à pressa talvez por pessoal do Pel. Mort. de Bambadinca, digo eu, apontada ao sentido contrário ao que seguíamos e que tinha escrito, "LISBOA 3.000 KM, acho que estavam mal medidos, mas que deixou o cá o rapaz de rastos deixou. Retomamos de novo o caminho mas ainda paramos num local que vim a saber chamar-se Bafata, que era a 2ª maior cidade da Guiné, passados 11 Km, não sei para fazer o quê? talvez para entrar mais passageiros como os meus vizinhos de viagem, Bafata na época era, manga de cidade bonita comparada com Nova Lamego para a qual arrancamos finalmente 54 Km de estrada alcatroada, alias também o era logo a partir do Xime, e que mesmo assim estava sempre à espera de haver barulho a qualquer momento, felizmente que não aconteceu nada, chegados à porta de armas do quartel que ficava antes de entrar na cidade por volta das 13 horas.


...Continua.




Monday, October 27, 2008

Chegada a Bissau.






Foi no dia 15 de Julho de 1972, chegamos ao Figo Maduro de madrugada, vindos do RI15, Tomar, embarcamos por volta das 10 horas, com destino à Guiné, Leste, Nova Lamego, a viagem decorreu na normalidade para quem fazia o seu baptismo de voo, "quase todos", acho eu, pelas 12,20 o avião dos TAM, (transporte aéreo militar), imobilizou-se na placa, o pessoal prepara-se para sair, um a um lá se vão aproximando da porta, quando foi a minha vez, tive a sensação de que estava à porta de um forno, o ar estava abafado e o céu nublado, de imediato foi um despir blusões, arregaçar mangas de camisa, desapertar gravatas por todos os lados, mais parecia um campeonato qualquer de stiptease sem que ninguém desse o tiro de partida.

Após os procedimentos legais, tais como, dar vacinas a alguns que não sei porquê não as tomaram na Metrópole, contar o pessoal, não tivesse fugido algum pelo caminho, tudo isto feito dentro do barracão em Bissalanca. Após algum tempo e completo o serviço, vai de saltar para umas berliets que esperavam por nós cá fora e nisto começa a chover e a trovejar, parecia inverno na minha Lisboa, mas diferente porque ao mesmo tempo fazia muito calor, o que me fez muita confusão pois não sabia que era assim, nenhum "meteorologista" em 9 meses que já levava de tropa, no meu caso, se tinha dado ao trabalho de explicar minimamente o que iríamos encontrar nas províncias ditas Ultramarinas e em especial na Guiné devido à proximidade do trópico. Também foi chuva de pouca dura como começara acabou, uma novidade a juntar a tantas outras que comecei a coleccionar desde aquele momento.

Pouco depois cheguei a um quartel que vim a saber mais tarde chamar-se Deposito de Adidos localizado em Brá, onde no dia seguinte ao almoço vi um acto que para mim talvez tenha sido o mais chocante até à data da minha vida. Miúdos no refeitório do lado de fora porque nem sequer os deixavam entrar, com recipientes de vários tipos e feitios a mendigarem uns restos de comida, camaradas da "velhice", misturaram tudo, literalmente, como restos de sopa, espinhas, batatas e cascas de fruta tudo o que era lixo para darem as crianças, mais tarde pude verificar que o defeito era dessa unidade que juntava pessoal de todas as zonas do mato, o que em situações como esta. é propício a juntar sempre pouca coisa boa.

Na colecção, felizmente também houve algumas coisas boas que ainda hoje recordo e, uma delas na parte que toca à linguagem começou com: machimbombo, porque era necessário para chegar a Bissau, já dentro deste aprendi a palavra catinga, (manga dela), depois peso para pagar o bilhete, patacão, bazuka, da fresquinha e por aí fora.

Dia 20, como era da praxe, também tivemos a recepção de boas vindas, o cmdt-chefe deu um pulinho até Brá e lá discursou, como todos os que foram à tropa sabem bem como era, desfile do costume e mais uns "prontos a serem despachados até ao destino, Bambadinca e Nova Lamego.
OBS: Olha como eles eram tão verdinhos! ....CONTINUA.